O som da construção do conhecimento
Ontem, fui a um concerto.
Uma grande amiga me convidou para ir ao Royal Conservatory of Music, em Toronto, que, na verdade, é uma escola. O concerto apresentou três obras de música contemporânea, executadas por uma pequena orquestra composta apenas por estudantes. A primeira peça, composta por uma aluna de pós-graduação da instituição, estava sendo apresentada pela primeira vez naquele dia. Eu esperava algo mais próximo do que costumamos chamar de “música clássica”, talvez com mais ritmo, mas jamais algo que soasse completamente novo (e estranho...).
A compositora da primeira obra estava presente, uma jovem na casa dos vinte anos. Antes da apresentação, ela conversou com o público e explicou a inspiração por trás da composição. Disse que o som que imaginava era, na verdade, físico. Ela queria que o som tocasse as pessoas, que as ondas sonoras atravessassem a sala e provocassem uma reação corporal em quem estivesse ouvindo.
Confesso que fiquei curiosa, mas também cética. A apresentação começou e eu pude literalmente sentir o som. Ela conseguiu! Ao final, eu estava vibrando, profundamente tocada pelo que havia escutado. Uma das minhas hipóteses de pesquisa havia sido confirmada. É, sim, possível posicionar o corpo em um espaço imaterial e explorar as sensações e emoções que esse espaço nos permite vivenciar. Nosso corpo pode aprender com esses domínios não materiais do conhecimento.
A segunda obra da noite foi composta por um jovem compositor francês entre 2019 e 2020. Naquele momento, eu já havia entendido que o que estava ouvindo mudaria minha concepção de música orquestral. No entanto, a última peça foi ainda mais surpreendente. Ela combinava instrumentos acústicos e música eletrônica, além de incluir instrumentos inventados pelo próprio compositor. Mais do que isso, os instrumentos acústicos eram tocados de maneira pouco convencional, produzindo sons que, sob uma ótica mais conservadora, dificilmente seriam considerados música. E que experiência foi essa! O esforço físico dos músicos para abandonar as formas habituais de tocar foi uma das imagens mais marcantes que levei daquela noite. Como é desconfortável, e ao mesmo tempo vital, mudar nossos modos de fazer as coisas!
Quando o maestro encerrou a apresentação, os estudantes se levantaram e receberam os aplausos do público. Foi um momento emocionante para familiares e amigos, mas também para alguém como eu, que estava ali sem qualquer ligação pessoal direta com o evento. Pensei em como minhas expectativas sobre aquele concerto estavam equivocadas e em tudo o que aprendi sobre música naquela noite. Enquanto escrevo estas palavras, também penso muito na minha pesquisa.
Os jovens músicos foram desafiados a deixar de lado tudo o que haviam aprendido com tanto esforço na tradição clássica para embarcar em uma jornada muito diferente: criar uma música menos estruturada (ou menos técnica) e mais sensorial. Precisaram utilizar os instrumentos que estudavam na escola de outra forma, produzindo sons incomuns. Mas como saber se esses sons eram “bons”? Era preciso confiar na própria intuição. Além disso, foram convidados a tocar instrumentos inventados ou adaptados, que talvez só pudessem ser reconhecidos como instrumentos por alguém com um olhar mais aberto. E eles aceitaram o desafio! A curiosidade deles foi maior do que o medo, e eu os admirei profundamente por isso.
Aqui fica um agradecimento especial à minha amiga Renata Moreira, que sempre me leva a lugares onde eu jamais iria sozinha.
Tenho sentimentos muito semelhantes em relação à forma como estou construindo esta tese. Estou tentando compor uma nova canção. Estou em um palco clássico, mas o som que procuro criar não é clássico. É experimental, e a descoberta faz parte da própria experiência. Neste momento, não sei dizer se esse som é bom. A construção dos instrumentos, a maneira como adaptei os instrumentos tradicionais para produzir o som que procuro e o esforço adicional necessário para tocar algo que as pessoas não estão acostumadas a ouvir são aspectos ao mesmo tempo fascinantes e arriscados. E sabe de uma coisa? Estou adorando fazer todo esse barulho.
Talvez isso não soe como música aos seus ouvidos. Talvez, ao ler estas palavras, você pense: “Isto NÃO é uma tese de doutorado!” Ou talvez você goste, sentindo mais do que compreendendo. Assim como eu, naquela noite, senti fisicamente as ondas sonoras daquela música nova, talvez você também possa sentir minhas palavras.
Espero sinceramente que este trabalho toque mais profundamente seu coração e seu corpo do que sua mente. Espero que ele aproxime você do meu povo e do nosso espírito comunitário. E sonho que, ao terminar esta leitura, você possa sentir o seu gênero de uma maneira diferente.


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