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Blog: Antitese

Updated: Oct 27


Este espaço foi concebido por várias razões:

1 - Porque eu escrevo demais;

2 - Porque eu escrevo sobre muitos assuntos diferentes;

3 - Porque, além de escrever, resolvi fazer uma pesquisa que envolvesse outras modalidades, como desenho, escrita criativa, um diário de pesquisa e um podcast. Essas coisas todas não puderam entrar na minha monografia por razões práticas e institucionais.

4 - Porque, aqui, eu posso escrever em português brasileiro e dar mais acesso à minha pesquisa pras pessoas do meu país, ainda que elas não saibam inglês.

Outra razão muito importante é que eu, aqui, não preciso respeitar muitas regras e posso explorar mais livremente as potencialidades da minha pesquisa. Isso faz com que meu espírito acadêmico selvagem e revoltado possa se expressar livremente e intensificar a sensação de estar, realmente, fazendo algo novo.


[ENG; PT]

This blog is part of the appendix of my PhD dissertation. Here, I will post several stories I wrote and some drawings I made while I was working on my dissertation.


Este blog faz parte do apêndice da minha tese de doutorado. Aqui vou postar as muitas histórias que escrevi e alguns desenhos que fiz enquanto trabalhava na minha tese.


Besides the blog, I also worked on other creative products, and you can access them by clicking here: https://www.anemolina.com/hantitese


Além do Blog, eu tenho outros produtos criativos, você pode acessar todos eles clicando aqui: https://www.anemolina.com/hantitese


 
 

No último fim de semana, estive em Toronto para participar da Nuit Blanche. 


Trata-se de um evento que acontece ao longo de uma noite inteira, das sete da noite às sete da manhã, durante a qual é possível visitar uma enorme variedade de exposições, instalações, performances e intervenções artísticas, todas articuladas em torno de um tema central. Neste ano, o tema foi “ler a cidade através da arte”.


Minha querida e brilhante amiga Renata Moreira foi uma das curadoras do evento. Como ela atua na curadoria de arte queer, eu já imaginava que seu trabalho teria algum impacto na minha tese. O que eu não esperava era que esse impacto estivesse tão diretamente relacionado ao capítulo que estou escrevendo neste exato momento.


Você pode chamar isso de sorte, sincronicidade ou coincidência. Eu prefiro chamar de Magia.


Naquela noite, Renata me apresentou ao trabalho de Sy Gomes e, para minha felicidade, também à própria artista, que estava presente na Nuit Blanche.


Gomes, S. (2025). Fotografia pertencente ao acervo da autora.
Gomes, S. (2025). Fotografia pertencente ao acervo da autora.

Durante minha conversa com a artista, tive a oportunidade de explicar brevemente o tema do meu capítulo. Sy foi extremamente generosa ao dedicar parte do seu tempo para discutir comigo sua compreensão sobre o tempo, suas motivações artísticas e até mesmo indicar uma leitura que acabou se tornando uma referência importante para esta reflexão.


A artista articulou tempo e gênero de uma forma que oferece uma perspectiva alternativa sobre a temporalidade, contribuindo para uma compreensão mais profunda das experiências de populações em situação de vulnerabilidade.


Sy chamou atenção para o fato de que a expectativa média de vida no Brasil é de aproximadamente 76 anos. No entanto, a realidade das pessoas trans brasileiras é drasticamente diferente: sua expectativa de vida média gira em torno dos 35 anos. Também é importante lembrar que o Brasil ocupa, há muitos anos, a posição de país que mais mata pessoas trans no mundo.


Esses números podem levar à impressão de que viver como uma pessoa trans no Brasil é quase impossível; de que florescer, ser feliz e lutar por melhores condições de vida para essa população e para outros grupos em situação de risco seria uma tarefa inviável.


Sy não ignora as dificuldades. Pelo contrário, reconhece sua gravidade. Ainda assim, oferece um caminho de reflexão ao afirmar que precisamos “encantar o tempo ao nosso redor” (Gomes, 2025) para escapar da morte, tanto em seu sentido biológico quanto em seu sentido simbólico.

Voltarei às ideias de Sy no futuro, quando tiver o tempo para escrever um artigo, porque aquela conversa se tornou fundamental para minhas reflexões sobre o tempo. Por ora, porém, considero importante registrar a experiência extraordinária de conhecer uma artista cujo trabalho me impactou profundamente e perceber o quanto uma conversa de apenas vinte e cinco minutos pode transformar um processo de escrita.


Esse tipo de deslocamento cognitivo aconteceu diversas vezes durante o último ano do meu doutorado. Os pequenos registros pessoais que inseri ao longo desta tese procuram oferecer a você, leitora ou leitor, uma amostra dessas experiências.


Eles também estão aqui como um convite.


Um convite para permanecer aberta ou aberto ao inesperado durante sua própria pesquisa, porque nunca sabemos quem será a próxima pessoa extraordinária a cruzar nosso caminho e transformar, para sempre, a maneira como compreendemos aquilo que estamos estudando.


[1] Saiba mais sobre a artista aqui: https://sygomes.com.br/ 

[2] Gomes, S.(2025). See me from a distance:

 
 

O que é pesquisa? 


Onde a pesquisa é necessária ou sequer permitida? Como podemos construir conhecimento de forma relacional, inclusiva e comunitária sem perder a relevância? E, mais ainda, o que significa ser relevante nos dias de hoje? Desde o início desta pesquisa, venho tentando encontrar maneiras de dialogar com as pessoas e aprender com elas sem necessariamente extrair algo delas. Como pergunta Tuck (2013, p. 233): “Como desenvolver uma ética da pesquisa que diferencie o poder, que merece um escrutínio desvelador e até petrificante, das pessoas?” Essa busca tem sido uma das partes mais desafiadoras da minha tese.


Percebi, ao longo desse percurso, que não basta saber o que desejo fazer ou como pretendo fazer. Também preciso encontrar conceitos, definições e teorias capazes de abarcar o que a minha intuição já apontava: os princípios de pesquisa precisam ser mais importantes do que os resultados. Essa busca me ajudou a compreender melhor o que me incomoda nos modelos tradicionais de pesquisa em ciências sociais. No entanto, foi uma experiência específica que me fez reconhecer com clareza o tipo de opressão que eu não estava disposta a reproduzir.


Há algum tempo, uma pesquisadora me convidou para participar de seu estudo por meio de uma entrevista estruturada. Ela me enviou previamente o tema da pesquisa e, ao ler a descrição, percebi que o acontecimento investigado não havia ocorrido comigo no período que ela analisava e, mais do que isso, o acontecimento que ela estava pesquisando jamais tinha acontecido comigo. Em outras palavras, eu simplesmente não era a pessoa adequada para participar da pesquisa, porque o assunto em questão nunca tinha feito parte da minha biografia.

Expliquei isso à pesquisadora. Ela respondeu que esse detalhe não era importante e que minha participação continuava sendo necessária. Concordei, pensando que pesquisadores e pesquisadoras devem apoiar uns aos outros em seus trabalhos.


A entrevista foi longa, muito mais longa do que uma hora. Mas o problema não era sua duração. O mais difícil foram as perguntas. Algumas eram do tipo que eu jamais esperava receber, como: “Quais critérios você utiliza para escolher suas posições sexuais?”

Eu não estava preparada para responder algo tão íntimo.


Diante de algumas perguntas, tentei me esquivar e deixar claro meu desconforto. A entrevistadora aguardava alguns instantes e então repetia exatamente a mesma pergunta. Em certos momentos, uma mesma questão era repetida duas ou três vezes, até que eu fornecesse a resposta que parecia ser a esperada. Essa postura ignora um princípio fundamental da pesquisa feminista: a recusa e o silêncio também são formas legítimas de participação e produção de significado.


Mais importante do que isso, senti que tinha sido mantida na ignorância quando recebi o tema da pesquisa e que estava aprisionada dentro de um processo de pesquisa definido inteiramente por outra pessoa. Me senti violada. Senti que minha dignidade e meu direito à privacidade haviam sido removidos de mim. Quando a entrevista terminou, eu estava exausta, ferida e desorientada.


Também estava profundamente indignada.

Alguém da minha própria área de atuação havia me submetido a uma experiência que percebi como cruel e moralmente violenta. Naquele momento, tomei uma decisão definitiva: “Sem entrevistas.”

Na época, eu ainda não sabia como definir o tipo de interação que desejava estabelecer para a minha pesquisa. Mas tinha certeza de uma coisa: não repetiria a mesma violência psicológica que tantas vezes é legitimada e institucionalizada sem qualquer crítica.


Posições de poder, como a de entrevistador ou entrevistadora, podem ser sedutoras para qualquer pessoa. Além disso, escrever uma pesquisa costuma ser um processo de vulnerabilidade, o que torna ainda mais tentador buscar controle absoluto sobre alguma dimensão do trabalho. As frases anteriores talvez sejam minha tentativa de exercer compaixão mesmo depois da violência interpessoal que experimentei.


Hoje, ao estruturar minha própria metodologia, procuro priorizar conexões reais com todas as pessoas que compartilham comigo esta jornada de doutorado: professoras e professores, colegas, familiares, estudantes e, claro, aquelas pessoas que colaboram diretamente com o conteúdo desta tese, seja por meio dos livros e teorias que escrevem, seja por meio do diálogo direto que estabelecem comigo. Suas vozes se unem à minha de forma polifônica, sem jamais serem reduzidas a uma voz única ou homogênea.


Mais do que obter ou extrair informações de outras pessoas, este trabalho busca pensar com elas. Busca construir conhecimento em relação com, e não sobre o outro. Diante da minha pergunta de pesquisa, surge então um desafio fundamental: como tornar essa relação não colonial possível? Quais procedimentos se aproximam de uma prática não extrativista de produção de conhecimento? Dentro das estruturas da academia, é possível dar ao menos alguns passos em direção a uma metodologia capaz não apenas de produzir conhecimento, mas também de fortalecer comunidades?


Foi exatamente isso que tentei fazer na minha reflexão metodológica.

 
 

© 2026 by Ane Molina

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