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Como o meu desconforto moldou minha metodologia

2 days ago
3 min read

O que é pesquisa? 


Onde a pesquisa é necessária ou sequer permitida? Como podemos construir conhecimento de forma relacional, inclusiva e comunitária sem perder a relevância? E, mais ainda, o que significa ser relevante nos dias de hoje? Desde o início desta pesquisa, venho tentando encontrar maneiras de dialogar com as pessoas e aprender com elas sem necessariamente extrair algo delas. Como pergunta Tuck (2013, p. 233): “Como desenvolver uma ética da pesquisa que diferencie o poder, que merece um escrutínio desvelador e até petrificante, das pessoas?” Essa busca tem sido uma das partes mais desafiadoras da minha tese.


Percebi, ao longo desse percurso, que não basta saber o que desejo fazer ou como pretendo fazer. Também preciso encontrar conceitos, definições e teorias capazes de abarcar o que a minha intuição já apontava: os princípios de pesquisa precisam ser mais importantes do que os resultados. Essa busca me ajudou a compreender melhor o que me incomoda nos modelos tradicionais de pesquisa em ciências sociais. No entanto, foi uma experiência específica que me fez reconhecer com clareza o tipo de opressão que eu não estava disposta a reproduzir.


Há algum tempo, uma pesquisadora me convidou para participar de seu estudo por meio de uma entrevista estruturada. Ela me enviou previamente o tema da pesquisa e, ao ler a descrição, percebi que o acontecimento investigado não havia ocorrido comigo no período que ela analisava e, mais do que isso, o acontecimento que ela estava pesquisando jamais tinha acontecido comigo. Em outras palavras, eu simplesmente não era a pessoa adequada para participar da pesquisa, porque o assunto em questão nunca tinha feito parte da minha biografia.

Expliquei isso à pesquisadora. Ela respondeu que esse detalhe não era importante e que minha participação continuava sendo necessária. Concordei, pensando que pesquisadores e pesquisadoras devem apoiar uns aos outros em seus trabalhos.


A entrevista foi longa, muito mais longa do que uma hora. Mas o problema não era sua duração. O mais difícil foram as perguntas. Algumas eram do tipo que eu jamais esperava receber, como: “Quais critérios você utiliza para escolher suas posições sexuais?”

Eu não estava preparada para responder algo tão íntimo.


Diante de algumas perguntas, tentei me esquivar e deixar claro meu desconforto. A entrevistadora aguardava alguns instantes e então repetia exatamente a mesma pergunta. Em certos momentos, uma mesma questão era repetida duas ou três vezes, até que eu fornecesse a resposta que parecia ser a esperada. Essa postura ignora um princípio fundamental da pesquisa feminista: a recusa e o silêncio também são formas legítimas de participação e produção de significado.


Mais importante do que isso, senti que tinha sido mantida na ignorância quando recebi o tema da pesquisa e que estava aprisionada dentro de um processo de pesquisa definido inteiramente por outra pessoa. Me senti violada. Senti que minha dignidade e meu direito à privacidade haviam sido removidos de mim. Quando a entrevista terminou, eu estava exausta, ferida e desorientada.


Também estava profundamente indignada.

Alguém da minha própria área de atuação havia me submetido a uma experiência que percebi como cruel e moralmente violenta. Naquele momento, tomei uma decisão definitiva: “Sem entrevistas.”

Na época, eu ainda não sabia como definir o tipo de interação que desejava estabelecer para a minha pesquisa. Mas tinha certeza de uma coisa: não repetiria a mesma violência psicológica que tantas vezes é legitimada e institucionalizada sem qualquer crítica.


Posições de poder, como a de entrevistador ou entrevistadora, podem ser sedutoras para qualquer pessoa. Além disso, escrever uma pesquisa costuma ser um processo de vulnerabilidade, o que torna ainda mais tentador buscar controle absoluto sobre alguma dimensão do trabalho. As frases anteriores talvez sejam minha tentativa de exercer compaixão mesmo depois da violência interpessoal que experimentei.


Hoje, ao estruturar minha própria metodologia, procuro priorizar conexões reais com todas as pessoas que compartilham comigo esta jornada de doutorado: professoras e professores, colegas, familiares, estudantes e, claro, aquelas pessoas que colaboram diretamente com o conteúdo desta tese, seja por meio dos livros e teorias que escrevem, seja por meio do diálogo direto que estabelecem comigo. Suas vozes se unem à minha de forma polifônica, sem jamais serem reduzidas a uma voz única ou homogênea.


Mais do que obter ou extrair informações de outras pessoas, este trabalho busca pensar com elas. Busca construir conhecimento em relação com, e não sobre o outro. Diante da minha pergunta de pesquisa, surge então um desafio fundamental: como tornar essa relação não colonial possível? Quais procedimentos se aproximam de uma prática não extrativista de produção de conhecimento? Dentro das estruturas da academia, é possível dar ao menos alguns passos em direção a uma metodologia capaz não apenas de produzir conhecimento, mas também de fortalecer comunidades?


Foi exatamente isso que tentei fazer na minha reflexão metodológica.

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