A "verdadeira acadêmica" que se tornou um fracasso
Sempre fui uma pessoa criativa.
Desde criança, a imaginação fazia parte da forma como eu me relacionava com o mundo. No entanto, no início deste projeto, minha intenção era seguir um caminho inteiramente teórico. Sabe como é? Ser séria pela primeira vez (ironia aqui...) e assumir o papel da pesquisadora “de verdade”.
Anos atrás, um colega me disse: “O que você faz é filosofia, não ciência.” Outro comentou, referindo-se às implicações políticas do meu campo de pesquisa: “Panfletagem não é ciência.” Hoje, consigo formular uma resposta para essas afirmações:
“O que eu faço é arte. A arte feminista de construir conhecimento coletivamente, com o objetivo de promover justiça social.”
Mas essa compreensão sobre o que faço surgiu apenas recentemente. Como mencionei, no início do doutorado tentei me encaixar no modelo acadêmico mais formal. E adivinha? Fracassei lindamente!
Tudo começou durante meus exames de qualificação (Comps) quando comecei a escrever um conto que hoje está publicado em português. Minha motivação surgiu das teorias que eu estava estudando para a prova e da curiosidade de imaginar como elas se manifestariam em uma situação concreta. Escrevi uma história ambientada em um futuro em que todos os princípios feministas e anticoloniais haviam sido plenamente implementados e a humanidade havia se libertado das opressões que conhecemos hoje: capitalismo, violência, preconceito, doenças, mudanças climáticas, fome e tantas outras. Não vou revelar detalhes da trama, mas posso dizer que o mundo que imaginei estava longe de ser perfeito. Era um mundo repleto de problemas diferentes dos que a gente tem hoje.
Escrevi esse conto justamente quando tentava concluir meu exame de qualificação. Aquele período foi doloroso e solitário, marcado por muitas incertezas. Ainda assim, encontrei um enorme prazer nos momentos em que fazia uma pausa para escrever a história. De certa forma, essa atividade também se mostrou extremamente produtiva: eu descansava da escrita acadêmica sem me afastar das reflexões que vinham ocupando minha mente durante a preparação para os exames.
Foi nesse momento que percebi que recorrer à criatividade poderia ser uma estratégia valiosa durante a escrita da tese. A criação artística tinha o potencial de me motivar, de me trazer alegria e de me ajudar a continuar trabalhando mesmo nos momentos de exaustão. Pela primeira vez, permiti que a criatividade se aproximasse da minha produção acadêmica e colaborasse com a construção do meu trabalho intelectual.
Foi a primeira vez que flertei com a possibilidade de usar a criatividade não como algo separado da pesquisa, mas como aliada na elaboração do conhecimento. Foi a semente do que se tornaria a minha tese ao final de 5 anos.


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