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A verdade definitiva não existe

2 days ago
6 min read

Acredito que o conhecimento seja uma jornada sem fim. 


Aprendemos desde o momento em que nascemos até o dia em que fechamos os olhos pela última vez. Por isso, considero essencial cultivar a humildade ao longo da vida, para que não percamos nenhuma oportunidade de reconhecer o que ainda não sabemos e de aprender com isso. Aprendemos com nossas próprias experiências e também com as dos outros, quando estamos dispostos a escutar. Em relação ao gênero, obtenho aprendizados valiosos a partir da minha própria vivência. Ainda assim, aprendo muito mais com os meus estudantes, com a participação em aulas inspiradoras e com a construção de relações significativas com pessoas diversas, em diferentes contextos e culturas. O que aprendi durante a vida muitas vezes contrastou com as regras que as instituições coloniais, a família, a religião e até mesmo ambientes educacionais e sociais progressistas tentaram me ensinar sobre gênero. E isso foi um dos pontos de partida para as minhas muitas curiosidades.


A epistemologia dominante, herdada diretamente da colonialidade do saber, limita nossa compreensão sobre gênero ao pressupor que diferentes marcadores de gênero estão necessariamente conectados entre si. Nessa lógica, aspectos como corporeidade, performance, sexualidade e afetividade devem estar alinhados para que alguém seja considerado aceitável em nossa sociedade supostamente “coerente”, mesmo quando essa pessoa se identifica como queer.


Um exemplo marcante vem de um amigo muito próximo, que foi chamado de viadinho desde muito cedo por ser pequeno, sensível e extremamente afetuoso. Quando teve idade suficiente para compreender o significado daquela palavra, ela já havia se tornado parte da forma como era percebido pelos outros e por si mesmo, aprisionando-o em uma identidade da qual lhe era difícil escapar. Mais tarde, ao ingressar na comunidade queer, descobriu que muitos outros jovens haviam vivido experiências semelhantes e, finalmente, encontrou um sentimento de pertencimento.


Nesse caso, as exigências sociais e culturais restringiram seu horizonte de percepção, colocando-o em uma bolha que o tornava, até certo ponto, aceitável. A aceitabilidade, mesmo que limitada, está ligada à coerência: sua expressão de gênero deve corresponder à sua sexualidade e às suas formas de afeto; suas roupas, amizades e os lugares que frequenta devem ser compatíveis com a identidade que proporciona conforto às outras pessoas. Se você é um viadinho, espera-se que socialize, se vista e ame como um viadinho. O mesmo mecanismo opera para mulheres, homens ou qualquer outra identidade queer.


Para nos libertarmos dessa noção dominante de “coerência”, precisamos dar um salto que nossa epistemologia atual ainda não está preparada para sustentar. É fundamental ampliar nossa compreensão do gênero e reconhecer a diversidade de arranjos existentes na vida real. Esses arranjos frequentemente são sufocados por um cis-tema que exige determinados comportamentos, alianças políticas e vínculos epistemológicos, tanto dentro quanto fora das expectativas normativas.

É necessário um salto disruptivo para acolher as múltiplas identidades, combinações e coalizões possíveis que ainda são limitadas por nossa herança colonial. Esse tipo de deslocamento, que permite reconhecer a complexidade da realidade, tornou-se mais frequente no nosso tempo devido ao maior acesso ao conhecimento e à troca de experiências entre as pessoas (nas redes sociais digitais, por exemplo). Mas ele ainda pode ser ampliado quando abrimos espaço para fontes ainda não legitimadas pelos sistemas tradicionais, repensamos os mecanismos de validação do conhecimento e afrouxamos as relações rígidas entre categorias opostas.


Para demonstrar esse tipo de salto e suas potencialidades, gostaria de começar com uma citação do artigo “The Burning Between: Androgyny/Photography/Desire”, de Nat Trotman (1999), que utilizei em minha dissertação de mestrado, defendida em 2015. Também apresentarei, mais adiante, uma representação gráfica que ajuda a visualizar essa ideia:

“Na geometria, dois pontos existem na ordem do linear,
e a introdução de um terceiro torna possível o plano. Esse terceiro ponto, porém, não deve ser pensado em função dos dois primeiros. Ele precisa existir numa relação perpendicular à linha criada por eles, como um elemento fora do conjunto constituído pelos dois pontos iniciais.
A androginia deve ser visualizada nesses termos: masculino e feminino são dois pontos que criam uma dialética linear. Se a androginia for entendida como uma mistura de características de gênero localizada sobre essa linha, ela não representa nenhuma libertação dos limites estabelecidos pelo gênero. Para criar uma concepção planar de gênero, na qual múltiplos papéis possam existir, a androginia precisa se posicionar fora do gênero tal como o conhecemos, subvertendo as instituições patriarcais que o definem ao localizar-se inteiramente fora delas. Portanto, a androginia deve situar-se além do discurso patriarcal tradicional e de sua visão de mundo objetiva, racional e linear. Ela deve alinhar-se ao subjetivo, ao irracional e ao domínio do prazer.”(Trotman, 1999, pp. 384-385)

Ao romper com a ideia de que a androginia seria simplesmente uma combinação entre o masculino e o feminino, Trotman a redefine como uma subversão das normas de gênero e um desafio ao próprio conceito de gênero. Ao apresentar a androginia como alternativa ao sistema binário tradicional, a autora consegue escapar de simplificações fáceis. Ainda assim, permanece limitada pelos três pontos que delimitam aquilo que os estudos de gênero geralmente reconhecem como possível. Embora a androginia possa ser um conceito revolucionário, talvez ela não seja suficiente para abarcar toda a diversidade de expressões corporais, formas de afeto, arranjos políticos e possibilidades de produção de conhecimento que encontramos em um mundo em rápida transformação.

Depois de concluir meu mestrado, minha vida se transformou profundamente. Percebi que a pesquisa acadêmica significava muito mais para mim do que a conquista de um título. Ela mudou a maneira como compreendo a mim mesma, a forma como percebo os outros e a maneira como meus afetos me permitem estabelecer conexões. Transformou meu eu individual e também meu eu coletivo.

E então, em uma aula de semiótica, minha pesquisa e minha vida foram transformadas mais uma vez por meio do encontro com o outro.

Eu conversava sobre minha pesquisa com um professor generoso e, ao apresentar um diagrama sobre gênero planar, ele me perguntou o que acontecia fora das três linhas.

O momento decisivo


Essa pergunta despertou minha curiosidade feminista (Hemmings, 2012) e me levou a investigar o que existe para além dos três sujeitos tradicionalmente reconhecidos pelos estudos de gênero: o masculino, o feminino e o desviante. Levei algum tempo para identificar aquele território fora das linhas como um espaço não colonial. Mas rapidamente percebi as limitações das fontes às quais vinha recorrendo até então.

Passei a reconhecer como algumas das referências que utilizava frequentemente reforçavam o binarismo e as relações de oposição entre aspectos masculinos e femininos do sujeito. Compreendi que minha pesquisa também estava atravessada por valores modernos profundamente naturalizados dentro do pensamento feminista.


Uma evidência de que até mesmo o feminismo frequentemente permanece preso às três linhas coloniais pode ser encontrada nas interpretações que algumas autoras feministas fazem de práticas como drag, crossdressing, travestilidade e até mesmo a homossexualidade masculina, compreendendo-as sempre em relação às mulheres ou à feminilidade. Judith Butler nos lembra que, em sua forma extrema, esse movimento representa uma espécie de colonização invertida: uma tentativa de colocar as mulheres feministas no centro da experiência homossexual masculina, reinscrevendo paradoxalmente a matriz heterossexual no coração de posições feministas radicais (Butler, 1993, p. 121).

Para compreender plenamente a diversidade das expressões corporais e dos afetos que existem para além das três linhas coloniais, precisamos primeiro abandonar nossa compreensão atual de gênero, profundamente enraizada em uma epistemologia colonial, questão à qual retornarei diversas vezes ao longo desta tese.


A realidade dos corpos é complexa e fluida demais para ser continuamente ancorada ou comparada a uma identidade consolidada, a um contexto específico ou a um conjunto cristalizado de regras culturais. É esse conhecimento que busco nas culturas afro-pindorâmicas, porque acredito que ele possa transformar os estudos de gênero e as formas como produzimos conhecimento sobre gênero.


A maneira como conduzimos nossas pesquisas deve permanecer aberta às possibilidades do desconhecido e abandonar oposições excessivamente utilizadas, como “essência versus construção social”, conforme discuti na minha revisão de literatura. Este é mais um exemplo de como os estudos de gênero permanecem confinados às linhas da colonialidade. Mesmo conscientes dos problemas produzidos por essas oposições, ainda não fomos capazes de construir estruturas alternativas para teorizar o corpo, seus afetos, suas complexidades e sua presença política no mundo. Mas negar relações binárias ou instituir novos comportamentos obrigatórios, novas formas normativas de relacionamento e novas regras de gênero não parece ser a resposta.


A possibilidade de escapar da essência binária da existência social constitui um campo fértil, que pode ser explorado por diferentes epistemologias. A realidade dos corpos (onto) e seus gêneros (epistemo) estão relacionadas, mas não são a mesma coisa (Hemmings, 2012). Além disso, podem abrir espaço para outros elementos capazes de complexificar a binaridade e de expandir os estudos de gênero.


Se existe algum potencial de transformação política na relação entre o onto e o epistemo, ele reside na passagem entre aquilo que somos hoje e aquilo que podemos vir a ser, tanto individual quanto coletivamente. Este trabalho é acadêmico, mas também é uma tentativa de experimentar diferentes epistemologias, formatos de escrita, modos de viver e formas de pesquisar. É uma busca para compreender a mim mesma, as pessoas que amo, a realidade que compartilho com elas e, quem sabe, contribuir para melhorar a vida de tantas pessoas que ainda não conseguem encontrar pertencimento e amor.


Gostaria muito que meninos pequenos pudessem crescer sem as limitações impostas por um rótulo, livres o suficiente para descobrir quem são e construir, por si mesmos, maneiras únicas de viver, amar e compartilhar suas verdades.

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