Encontrando o tempo na arte e no gênero
No último fim de semana, estive em Toronto para participar da Nuit Blanche.
Trata-se de um evento que acontece ao longo de uma noite inteira, das sete da noite às sete da manhã, durante a qual é possível visitar uma enorme variedade de exposições, instalações, performances e intervenções artísticas, todas articuladas em torno de um tema central. Neste ano, o tema foi “ler a cidade através da arte”.
Minha querida e brilhante amiga Renata Moreira foi uma das curadoras do evento. Como ela atua na curadoria de arte queer, eu já imaginava que seu trabalho teria algum impacto na minha tese. O que eu não esperava era que esse impacto estivesse tão diretamente relacionado ao capítulo que estou escrevendo neste exato momento.
Você pode chamar isso de sorte, sincronicidade ou coincidência. Eu prefiro chamar de Magia.
Naquela noite, Renata me apresentou ao trabalho de Sy Gomes e, para minha felicidade, também à própria artista, que estava presente na Nuit Blanche.

Durante minha conversa com a artista, tive a oportunidade de explicar brevemente o tema do meu capítulo. Sy foi extremamente generosa ao dedicar parte do seu tempo para discutir comigo sua compreensão sobre o tempo, suas motivações artísticas e até mesmo indicar uma leitura que acabou se tornando uma referência importante para esta reflexão.
A artista articulou tempo e gênero de uma forma que oferece uma perspectiva alternativa sobre a temporalidade, contribuindo para uma compreensão mais profunda das experiências de populações em situação de vulnerabilidade.
Sy chamou atenção para o fato de que a expectativa média de vida no Brasil é de aproximadamente 76 anos. No entanto, a realidade das pessoas trans brasileiras é drasticamente diferente: sua expectativa de vida média gira em torno dos 35 anos. Também é importante lembrar que o Brasil ocupa, há muitos anos, a posição de país que mais mata pessoas trans no mundo.
Esses números podem levar à impressão de que viver como uma pessoa trans no Brasil é quase impossível; de que florescer, ser feliz e lutar por melhores condições de vida para essa população e para outros grupos em situação de risco seria uma tarefa inviável.
Sy não ignora as dificuldades. Pelo contrário, reconhece sua gravidade. Ainda assim, oferece um caminho de reflexão ao afirmar que precisamos “encantar o tempo ao nosso redor” (Gomes, 2025) para escapar da morte, tanto em seu sentido biológico quanto em seu sentido simbólico.
Voltarei às ideias de Sy no futuro, quando tiver o tempo para escrever um artigo, porque aquela conversa se tornou fundamental para minhas reflexões sobre o tempo. Por ora, porém, considero importante registrar a experiência extraordinária de conhecer uma artista cujo trabalho me impactou profundamente e perceber o quanto uma conversa de apenas vinte e cinco minutos pode transformar um processo de escrita.
Esse tipo de deslocamento cognitivo aconteceu diversas vezes durante o último ano do meu doutorado. Os pequenos registros pessoais que inseri ao longo desta tese procuram oferecer a você, leitora ou leitor, uma amostra dessas experiências.
Eles também estão aqui como um convite.
Um convite para permanecer aberta ou aberto ao inesperado durante sua própria pesquisa, porque nunca sabemos quem será a próxima pessoa extraordinária a cruzar nosso caminho e transformar, para sempre, a maneira como compreendemos aquilo que estamos estudando.
[1] Saiba mais sobre a artista aqui: https://sygomes.com.br/
[2] Gomes, S.(2025). See me from a distance:
travestis billboards. Nuit Blanche 2025, Toronto, ON, Canada. https://www.youtube.com/watch?v=J8M42_tLh90&t=3s ; https://hubportodragao.cultura.ce.gov.br/artista-cearense-sy-gomes-expoe-outdoors-reinventados-na-nuit-blanche-toronto-um-dos-principais-festivais-de-arte-publica-da-america-do-norte/

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